As companhia de IA (Bigtechs e Edtechs) estão devorando o Ensino Superior?

Resenha de Ivini Ferraz

O ecossistema acadêmico contemporâneo enfrenta um desafio ontológico sem precedentes. A rápida integração de ferramentas de Inteligência Artificial Generativa (IAG) nas práticas discentes não representa apenas uma transição tecnológica, mas uma disputa por soberania pedagógica. Em seu artigo de opinião para o The New York Times, intitulado A.I. Companies Are Eating Higher Education”, Matthew Connelly (NYT, 2026), vice-reitor de iniciativas de IA na Universidade de Columbia, alerta para o fenômeno do predatismo corporativo que ameaça a profundidade do aprendizado no ensino superior.

Alunos e professores como embaixadores de marcas

Segundo Connelly (2026), as empresas de IA têm adotado estratégias de marketing “adversariais” que visam capturar o corpo discente como uma base de usuários cativa, frequentemente contornando as diretrizes institucionais das universidades. Um exemplo citado é o recrutamento de “embaixadores estudantis” alunos remunerados para promover ferramentas como o Claude (Anthropic) entre seus pares.

O ponto mais sensível para nós, professores, é o impacto pedagógico. O artigo cita pesquisas indicando que estudantes que dependem excessivamente da IA leem de forma menos atenta e escrevem com menor originalidade e precisão. O risco não é apenas o plágio, mas a perda da percepção do que se está deixando de aprender. A IA “automatiza o pensamento” antes mesmo que o aluno aprenda a pensar.

Enquanto as universidades buscam tornar os alunos mais inteligentes e críticos, as Big Techs estão focadas na busca pela AGI (Inteligência Artificial Geral). Connelly argumenta que essa corrida pelo lucro e pela escala desvia o desenvolvimento de sistemas que poderiam, de fato, atuar como tutores pedagógicos reais, em favor de ferramentas que apenas entregam respostas prontas.
Embora o texto de Connelly tenha um tom forte de “defesa das trincheiras”, sua relevância é universal para qualquer graduação. Como educadora de IA, vejo que o problema não é a tecnologia em si, mas a transferência da autoridade epistemológica.

Quando um aluno de Medicina usa a IA para resumir um caso clínico complexo sem entender as nuances, ou um aluno de Engenharia usa o Copilot para gerar código sem validar a lógica de segurança, eles não estão apenas “ganhando tempo”. Eles estão, como diz Connelly, atrofiando o músculo da inteligência que as nossas instituições juraram proteger.

Do ponto de vista pedagógico, a preocupação central reside na possível atrofia das capacidades cognitivas superiores. Connelly argumenta que a dependência excessiva dessas ferramentas compromete a leitura atenta e a escrita reflexiva. Observa-se um risco iminente de que os estudantes percam a percepção do que efetivamente deixam de aprender ao delegar tarefas intelectuais aos algoritmos.

Neste cenário, a IA deixa de ser um suporte à pesquisa para tornar-se uma barreira entre o aluno e o objeto de conhecimento. A “automação do pensamento” antecipa-se ao processo de maturação intelectual, resultando em produções que, embora gramaticalmente corretas, carecem de originalidade, precisão e, sobretudo, do esforço analítico que caracteriza a formação de nível superior.

Conflito de propósitos: Educação Humana vs. Escala Tecnológica

Há um descompasso estrutural entre as missões institucionais. As universidades são voltadas para o florescimento da inteligência humana e a busca pela verdade. Em contrapartida, a corrida das Big Techs em direção à Inteligência Artificial Geral (AGI) prioriza a escala, o lucro e o treinamento de modelos de linguagem a partir de dados gerados pelos próprios usuários, incluindo acadêmicos.

Connelly (2026) destaca que, ao adotarem licenças corporativas onerosas dessas ferramentas, as universidades correm o risco de se tornarem dependentes de ecossistemas fechados que não foram desenhados com propósitos educativos, mas sim comerciais. Essa dependência compromete a autonomia epistemológica dos docentes, que passam a lidar com ferramentas “caixa-preta” cujos critérios de verdade são opacos.

O artigo de Connelly acerta ao apontar que o custo dessas ferramentas para as universidades é exorbitante, não só financeiramente (com licenças corporativas caríssimas), mas em termos de autonomia. Estamos nos tornando dependentes de ecossistemas fechados que ditam como o conhecimento deve ser processado.

Apologia às BigTechs e ao mercado das Edtechs

O Banco Mundial, especialmente por meio do conceito de “Pobreza de Aprendizagem” (Learning Poverty), consolidou uma narrativa de emergência educacional global. Ao enquadrar o ensino público como ineficiente e em crise perpétua, cria-se o cenário ideal para a introdução de soluções de “escala” e “baixo custo”.

  • Mecanismo: A IA e as EdTechs são apresentadas não como complementos, mas como “balas de prata” capazes de suprir a falta de professores qualificados e infraestrutura física.
  • Consequência: Essa retórica desloca o investimento do fortalecimento das carreiras docentes para a aquisição de licenças de softwares privados, transformando o orçamento público em receita para as Big Techs.

O Relatório de Desenvolvimento Mundial (WDR) 2026 e a IA

O WDR 2026: Inteligência Artificial para o Desenvolvimento reflete essa tendência ao focar na IA como uma “Tecnologia de Propósito Geral” (GPT) que pode permitir que países em desenvolvimento “saltem” etapas de desenvolvimento.

  • Padronização e Interoperabilidade: O Banco Mundial defende a criação de padrões globais de dados. Embora pareça técnico, isso facilita a entrada de grandes plataformas transnacionais em mercados locais, pois exige que os sistemas nacionais sejam compatíveis com as arquiteturas de dados da Microsoft, Google e Anthropic.
  • Parcerias Público-Privadas (PPPs): Iniciativas como o projeto Fab AI (parceria com a Fundação Gates) promovem a “inovação baseada em evidências”, mas frequentemente priorizam resultados mensuráveis de curto prazo (ROI – Return on Investment), o que favorece ferramentas de aprendizado mecânico em detrimento da formação crítica humana.

Enquanto Connelly observa o fenômeno sob a ótica da soberania institucional nos EUA, no Brasil a tendência assume contornos de oportunidade econômica e urgência educacional. Segundo o EdTech Report 2024 (DISTRITO, 2024), o Brasil concentra quase 80% do volume de investimentos em tecnologia educacional na América Latina, totalizando U$ 475,6 milhões entre 2018 e 2024.Este artigo final integra as reflexões críticas de Matthew Connelly (NYT) com o panorama das EdTechs no Brasil e a importância do rigor científico na avaliação educacional, conforme reportado pelo Jornal da USP.


Desafios da IA no Ensino Superior Brasileiro

O avanço das tecnologias de Inteligência Artificial (IA) no ensino superior estabelece uma tensão entre a promessa de inovação e a preservação da autonomia intelectual. Este artigo analisa a crítica de Matthew Connelly (2026) sobre o impacto das Big Techs na educação, contrastando-a com o pujante mercado de EdTechs no Brasil e a necessidade de processos avaliativos rigorosos, discutidos em recentes fóruns acadêmicos na USP Ribeirão Preto. Defende-se que a tecnologia, desacompanhada de uma cultura de avaliação científica e formação docente, pode comprometer a essência do aprendizado de nível superior.

Diferente do contexto norte-americano, no Brasil a entrada da tecnologia educacional é frequentemente vista como uma solução necessária para defasagens estruturais. Segundo o EdTech Report 2024 (DISTRITO, 2024), o Brasil lidera o mercado latino-americano de EdTechs, concentrando quase 80% do investimento na região.

Conforme aponta Antonio Marco Martins (Jornal da USP, 2024), o ecossistema brasileiro é “fértil” devido às lacunas estruturais do sistema público e privado. Esse cenário é reforçado por dados alarmantes do Pisa e do Ideb, que mostram que a maioria dos alunos brasileiros não atinge o patamar mínimo em matemática e leitura. Nesse vácuo de eficiência do Estado, as EdTechs surgem como “soluções de prateleira”. A lógica de mercado, frequentemente impulsionada por diretrizes de organismos como o Banco Mundial, enxerga nessas falhas uma oportunidade de expansão para o “Edu-Capitalismo”.

Melhor caminho: Resistência ou crítica?

Sobre a proibição, o artigo de Connelly sugere que o caminho não é a proibição cega, mas o reconhecimento de que estamos em uma posição adversarial. Se as empresas de IA estão “semeando divisão”, nossa resposta deve ser a unificação em torno da literacia crítica.

Precisamos ensinar nossos alunos a ver através do “hype”. Se a IA é vendida como uma forma de aliviar o estresse, devemos mostrar que o esforço cognitivo é onde a aprendizagem de fato acontece. Substituir esse esforço por um prompt é, em última análise, um estelionato educacional que o aluno comete contra si mesmo. Matthew Connelly encerra seu texto com um chamado ao dever: somos os guardiões da inteligência humana. No ensino superior, o nosso produto não é o diploma, mas o processo de transformação cognitiva.

O artigo do NYT serve como um lembrete de que não podemos ser passivos. Não somos apenas usuários dessas tecnologias; somos os críticos que devem moldar como (e se) elas entram no currículo. A inteligência artificial pode ser uma aliada poderosa, mas apenas se não permitirmos que ela “devore” o propósito do ensino: formar humanos capazes de pensar por si mesmos, sem a necessidade de um algoritmo para validar suas ideias.

O futuro do ensino superior depende da nossa capacidade de mostrar aos alunos que a mente humana continua sendo o nosso território mais precioso, e é hora de defendê-lo.

A análise crítica das proposições de Connelly conduz a uma conclusão imperativa: o corpo docente deve assumir uma postura de resistência proativa. Não se trata de uma tecnofobia infundada, mas da preservação do valor do esforço cognitivo. A educação não pode ser reduzida ao fornecimento de respostas, mas sim ao processo de formulação de perguntas complexas.

Como educadores de IA, o desafio é promover o letramento digital que permita aos alunos utilizar a tecnologia sem se tornarem subordinados a ela. É necessário reafirmar que o diploma universitário atesta um processo de transformação cognitiva que a IA, por definição, é incapaz de replicar. A defesa da inteligência humana contra a “devoração” pelas corporações de tecnologia é, portanto, a defesa da própria universidade como espaço de pensamento livre e autônomo.


Referências

CONNELLY, Matthew. A.I. Companies Are Eating Higher Education. The New York Times, Nova York, 12 fev. 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/2026/02/12/opinion/ai-companies-college-students.html.

CONNELLY, Matthew. A.I. Companies Are Eating Higher Education. The New York Times, 12 fev. 2026.

DISTRITO. EdTech Report 2024: Panorama do ecossistema de inovação em educação. São Paulo, 2024.

INSTITUTO PENÍNSULA. Sentimentos e percepção dos professores brasileiros. São Paulo, 2020.

JORNAL DA USP. Pesquisadores apresentam trabalhos em evento nacional de avaliação em educação. Ribeirão Preto, 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/campus-ribeirao-preto/pesquisadores-apresentam-trabalhos-em-evento-nacional-de-avaliacao-em-educacao/.

MARTINS, Antonio Marco; MIURA, Cris. In: Mapeamento de Startups da Região Metropolitana de Ribeirão Preto. Supera Parque, 2024.

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