Vivemos um momento de ruptura no ensino superior que muitos ainda tentam ignorar. A ascensão da inteligência artificial generativa não é apenas uma ferramenta nova no estojo dos estudantes; é um terremoto que abala os pilares de como medimos o conhecimento hoje. Diante desse cenário, a reação imediata de muitas instituições tem sido o endurecimento: mais softwares de detecção, vigilância reforçada e uma caça incessante ao plágio tecnológico. Mas os pesquisadores Johan Alvehus e Eddy Nehls levantam uma questão intrigante: e se parássemos de lutar contra a correnteza e aceitássemos que o sistema de avaliação tradicional morreu?
A proposta desses acadêmicos suecos é radical. Eles defendem que deveríamos liberar o uso de ferramentas como o ChatGPT sem restrições e, consequentemente, aposentar os exames convencionais e as monografias.
A ilusão do controle e a farsa acadêmica nas universidades
A universidade moderna corre o risco de se transformar em uma máquina de emitir certificados, onde o foco mudou do aprendizado real para a gestão da nota. Atualmente, qualquer aluno pode utilizar melhores IAs para estudar e redigir ensaios impecáveis que passam pela maioria dos filtros. Quando a academia tenta policiar essa prática, entra em uma corrida tecnológica que já nasceu perdida.
Ao insistirmos em métodos de avaliação baseados em textos produzidos em casa ou dissertações solitárias, alimentamos um teatro de sombras. O professor finge que avalia um conhecimento original, enquanto o aluno utiliza a tecnologia para processar informações. O resultado é um diploma que atesta a habilidade de manipular algoritmos, mas não necessariamente a profundidade intelectual ou a capacidade crítica do indivíduo.
O papel da universidade na era da IA: Espaço de saber, não de certificação
Se removermos o peso da avaliação constante, o que sobra? Para Alvehus e Nehls, sobra o que realmente importa: o desejo genuíno de aprender. Ao eliminar a necessidade de “provar” o conhecimento através de métodos obsoletos, a universidade pode retornar à sua essência original de ser um centro de debate, curiosidade e desenvolvimento humano.
Aqueles que buscam apenas o título perderiam o interesse em um sistema que não oferece métricas fáceis de serem burladas. Por outro lado, quem busca o domínio de sua área encontraria um ambiente livre da burocracia, focado na prática e no pensamento complexo que a inteligência artificial, por si só, ainda não consegue replicar sem a mediação humana.

O mercado de trabalho como o novo avaliador
Uma das partes mais polêmicas dessa visão é a transferência da responsabilidade. Se a faculdade deixa de ser a inspetora final da qualidade do aluno, quem assume esse papel? A resposta curta é: o mercado de trabalho.
No modelo proposto, os empregadores passariam a ter um papel mais ativo em testar as habilidades práticas e o conhecimento real dos candidatos durante as contratações. Em áreas como tecnologia e design, isso já é o padrão: portfólios e testes práticos valem muito mais do que o brasão no diploma. Se um profissional não consegue demonstrar competência em um ambiente real, de nada serve uma nota máxima em uma prova que pode ter sido gerada por uma máquina.
Educação do futuro: Parar de olhar pelo retrovisor
A resistência das instituições é compreensível, mas perigosa. Muitas universidades estão agindo como se olhassem pelo retrovisor enquanto a inovação tecnológica as ultrapassa em alta velocidade. Tentar proibir tecnologias que serão onipresentes na vida profissional dos estudantes é negar a realidade.
O valor humano agora reside na capacidade de fazer as perguntas certas e aplicar o julgamento ético sobre o que a máquina produz. Aceitar o fim dos exames não significa o fim da excelência, mas sim exigir um engajamento que o modelo de “decorar para a prova” nunca permitiu. É hora de reconstruir uma educação que faça sentido para um mundo onde o conhecimento está a um clique, mas a sabedoria continua sendo uma conquista humana.


